segunda-feira, 4 de março de 2013

Da relatividade do tempo e sua percepção policrônica...não linear...prefiro assim


O TEMPO DAS SOCIEDADES - por Regina Garbellini e Décio de Mello

O cara na sua frente, na fila, começa a bater papo com o caixa sobre uma visita à família, sem a menor pressa de pagar. Você marca com um amigo às oito e ele chega às dez, dizendo que o papo estava bom e ele não quis interromper. Seu companheiro de trabalho ficou de fazer um relatório mês passado, mas não parece muito preocupado com o atraso. Esse tipo de coisa, na nossa forma linear de ver o tempo, vai acabar em ressentimento, se não virar uma briga logo de cara. Mas em outras sociedades ( e na nossa, há muito tempo atrás) estes seriam padrões de comportamentos naturais.
Em sociedades onde o tempo é policrônico, uma transação comercial, antes de tudo, é uma relação entre duas pessoas: se você pagar e sair, pode ser considerado mal-educado. O correto seria bater um bom papo, perguntar sobre a família, tomar um cafezinho e, só então, pagar a sua caixa de fósforos e sair. Esta prioridade da relação interpessoal nas atividades humanas não é a única diferença entre o nosso uso do tempo e o deles. Os horários também não são muito levados a sério.
Já que o importante é a relação entre as pessoas, qual o barato de interromper um bom papo só pra chegar na hora do próximo compromisso? Mesmo terminar algo que começamos ou nos propusemos a fazer, para o tempo policrônico, não tem toda a urgência que tem para nós: nessas sociedades uma pessoa pode começar várias atividades e não se sentirá pressionada a concluir uma antes de iniciar a outra. A noção de encerramento, de conclusão de uma coisa antes do início de outra, é característica do tempo linear, de nossa forma de ver o tempo. Pro pessoal policrônico, as coisas levam o tempo que levam - e terminam quando terminarem.
Dá até uma certa aflição, não? Dá pra imaginar? Toda uma relação social acontecendo assim, colocando no tempo as atividades do dia de acordo com um critério que não tem nada a ver com um resultado objetivo, tão importante para nós, e sim com qualidade subjetiva da relação com o outro ou com o que se está fazendo...Do tipo " está chato, fica pra depois! ; "está legal, danem-se os horários!". Mas apesar da nossa estranheza, é assim mesmo que o tempo é sentido e vivido pelas pessoas na maior parte das culturas não industriais. Para eles, o tempo está associado à biologia, a um curso natural das coisas que não têm exatamente um objetivo, além, é claro, de comer, divertir-se e ter alguma segurança e afeto.
Quando a atividade principal do homem era caçar, colher plantas ou cultivá-las, havia uma profunda relação com os ciclos de tempo da natureza. Era imprescindível conhecer as estações, o comportamento sazonal de animais e plantas. A sociedade industrial ( e, antes dela, o mercantilismo) foi preparando as pessoas para um conceito diferente de tempo. O velho Marx anda caído, em termos de popularidade, mas é dele a constatação de que o valor dos produtos tem a ver com o tempo empregado em sua feitura.
Se um artesão leva um mês para fazer uma cadeira, vai ter que cobrar por ela umas vinte vezes mais do que poderia cobrar se fizesse uma cadeira por dia. E se ele faz uma por mês e o vizinho dele faz uma por dia, ele tá a perigo, pois dificilmente vai conseguir vender a sua - o outro pode vendê-las muito mais barato. A expressão tempo é dinheiro não é só efeito de retórica: na teoria econômica marxista, usada inclusive por muitos administradores contemporâneos, tempo é mesmo uma valor fundamental em termos econômicos.
Daí a gente, quase inconscientemente  acha que fazer algo mais rápido será sempre melhor, porque será possível fazer mais. O confronto com o tempo policrônico fica claro no exemplo do português recém-chegado à terrinha: ao dar o machado para o índio, imagina que ele vai cortar muito mais madeira, pois o aço é uma revolução técnica em relação ao machado de pedra dos tupiniquins. E surpreso, constata que o índio corta a mesma madeira em um quinto do tempo - e vai passear.
Pouco preocupado com o progresso dá pra entender porque era impossível escravizar o índio ou convencê-lo a trabalhar - pelo menos naquilo que entendemos por trabalho. Para ele era preferível morrer de tristeza a executar uma sucessão de tarefas que tinham que começar, terminar, e que não tinham nada a ver com a sua vida. Não é incrível que chamem, em Antropologia, a estrutura social deles de sociedade primitiva...?

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